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Comentário Editorial

 

 

Clóvis Rossi :
Impressões, apenas impressões


 

Impressões, necessariamente subjetivas, são perigosas, eu sei. Mas me atrevo a compartilhá-las com o leitor, feita de saída a observação anterior.

Volto a Jerusalém depois de oito anos da estada anterior. Nem me havia dado conta de que havia passado tanto tempo. Minhas viagens a Israel foram sempre assim, a intervalos mais ou menos longos (o mais longo são os oito anos de agora) e em situações de crise intensa, que parece coisa permanente.

Aliás, a líder da oposição, Tzipi Livni, no discurso que fez durante a sessão em homenagem ao presidente Lula esta tarde, disse que "hoje, lamentavelmente, o nome de Israel se interpreta como conflito permanente" [no exterior, claro].

Uma vez, antes de viajar para cobrir uma eleição em Israel, entrei em uma dessas salas de bate-papo para judeus, expliquei que era jornalista brasileiro, o que iria fazer em Israel e que gostaria de fugir do padrão de conversar com autoridades, acadêmicos, políticos etc, e ouvir "gente comum".

Primeira resposta recebida: "Em Israel, não há pessoas comuns".

Talvez não haja mesmo, mas nos oito anos transcorridos desde a viagem anterior, a impressão é a de que Jerusalém se tornou ainda mais judia do que já era. E se tornou, pelo menos fora dos muros da Cidade Velha e fora dos bairros dos judeus ortodoxos, uma cidade extremamente cosmopolita, consumista, com uma cara de fartura formidável. De Primeiro Mundo, vá lá o clichê.

Quando digo que se tornou ainda mais judia, é porque a ampliação dos espaços ocupados pelos judeus, em detrimento dos árabes, foi empurrando para o "corner" os palestinos com direito a residir em Jerusalém. Mais: foram se tornando mais discriminados, como reclamam os palestinos com os quais conversei (a gente comum que supostamente não existe pelo menos entre os judeus).

Se você percorrer os bairros de maioria árabe, vê facilmente que são menos cuidados pelos serviços públicos do que os demais. Aí, já não é impressão, mas constatação visual inevitável.

Jerusalém sempre foi uma cidade aparentemente mais recatada do que, por exemplo, Tel Aviv. Dizia-se que Jerusalém era para orar (pela imensa carga religiosa que a cidade leva no ventre) e Tel Aviv para farrear.

Dizem os que moram aqui que continua sendo um pouco assim, mas a ostentação está se espalhando em novos e requintados shopping centers, hotéis de luxo e todo o leque associado ao consumismo.

Os palestinos que restaram dão a sensação de terem baixado os braços, impotentes ante a persistente criação de fatos consumados por sucessivos governos de Israel.

Conclusão: será preciso um fato novo de grande dimensão para permitir que, algum dia, a parte Oriental de Jerusalém seja a capital de um eventual futuro Estado palestino. Hoje por hoje, goste-se ou não, está mais próximo o cântico de "Jerusalém, capital una e indivisível do povo judeu", entoado sistematicamente pelos israelenses.


 

 

Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo". Seus pontos de vista são não necessariamente aqueles de Petroleumworld.

Nota do editor : Este comentário foi publicado original por O Folha , 15 03 2010. Nós reproduzimos o mesmos ao benefício dos leitores.

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Petroleumworld Brasil 17/03/2010

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