Até porque os diálogos de nossos filmes e novelas são tão ruins e precariamente pronunciados, os grampos da Polícia Federal produzem o que há de melhor e mais genuíno na dramaturgia brasileira.
Quer saber o que é o Brasil, ouça, por exemplo, o clã Sarney, by PF.
A frase-título deste texto, "a diretoria está ótima", lapidar, foi dita por José Antonio Muniz a Fernando Sarney.
Era 4 de março de 2008. Os dois comemoravam a nomeação de Muniz à presidência da Eletrobrás por indicação do pai de Fernando, José, presidente do Senado e muitas outras coisas: um currículo a ser respeitado, como o defende Lula.
A Eletrobrás, como o nome diz, é uma estatal (gigantesca) do setor elétrico. O setor elétrico, como todos sabem, é o naco do país que Lula distribuiu a Sarney e Cia. em troca de uma tal governabilidade.
A Folha publicou no último domingo diálogos eletrizantes (by PF) entre Muniz e Fernando, revelando não só a influência direta do senador do Maranhão, quer dizer, do Amapá no setor elétrico, mas seus frutos.
"Dá pra fazer trabalho com o ministro dando força em cima, a hora é essa", diz Fernando a Muniz.
Em 14 de março, meros dez dias depois da festa pela nomeação, Fernando Sarney já ligava para Anelise Pacheco, assessora da presidência da Eletrobrás:
"Já acenei com ele [Muniz] que aquela área nós temos interesse em ter sob controle. E ele disse que sem problema. Me pediu uma semana, dez dias para sentar na cadeira e tal. Depois da Semana Santa, nós vamos atacar. "
Meses depois, como relata a matéria dos repórteres Andrea Michael, Andreza Matais e Hudson Corrêa, passada a Semana Santa, claro, que são todos muito católicos, uma ONG do Maranhão da qual José Sarney é presidente de honra recebeu, sem licitação, R$ 590 mil da Eletrobrás como patrocínio para fazer festas no Estado.
Pior do que isso tudo acontecer, ser flagrado pela polícia e divulgado com destaque na mídia é nada mudar na gestão desses órgãos públicos, como se estivéssemos fatalmente condenados à má política.
O ministro das Minas e Energias, o maranhense Edison Lobão, é aliado de primeira linha de Sarney e substituiu na bilionária pasta outro sarneyzista, Silas Rondeau.
Rondeau teve de renunciar às Minas em maio de 2007 após denúncias gravíssimas de outra operação da PF, a Navalha. A polícia recolheu fitas gravadas por câmeras do serviço de segurança do Ministério de Minas e Energia com imagens de funcionária da empreiteira Gautama entrando no ministério pelo elevador privativo com envelope pardo no qual, a polícia acredita, estavam supostamente R$ 100 mil.
Isso tudo é público e notório, mas mesmo assim Lula deu a Sarney o poder de nomear outro ministro para as Minas e Energia, o Lobão.
Dizer que a necessidade de manter alianças impõe esse tipo de arranjo, exatamente como se fez no governo FHC, é uma desculpa que não cola mais.
Quem quer essa governabilidade? Instauraram a ditadura dos corruptos, branda nos direitos humanos, implacável com o dinheiro do público.
Nos EUA, berço da democracia moderna, diz-se que o sistema político local foi "projetado por gênios para poder ser conduzido por idiotas".
No Brasil, certamente não tivemos a parte genial da equação.
E idiotas somos todos nós, que ainda validamos esse sistema toda vez que votamos.
Até quando?