Sinceramente estou embevecido com a respeitabilidade que o Brasil tem granjeado no exterior.
Fico orgulhoso quando o presidente Lula recebe um prêmio da qualidade do Chatham House – concedido somente a dignitários como o ex-presidente de Gana, John Kufour ou a mulher do emir do Catar, Sheikha Mozah Al-Missned – por representar o motor-chave da integração e da estabilidade na América Latina.
Até a imprensa argentina se rendeu ao País.
Na última segunda-feira um dos mais importantes jornais de Buenos Aires, La Nación, publicou editorial ressaltando o nosso papel “de líder regional e ator global de primeira ordem.”
Elogios fazem bem ao ego, agora trazem escasso resultado prático. Exercer liderança exige a assunção de responsabilidade e tem alto custo financeiro.
Exige capacitação dissuasória e de igual forma poder de aconselhamento. E requisita, além disso, alinhamento coerente com as Nações que decidem.
Dois fatos causam estranheza às pretensões do Brasil e podem converter a possibilidade de liderança regional e atuação de primeira linha no cenário global: a incrível leniência com as molecagens do presidente da Venezuela e a aproximação com regimes perniciosos como o ostentado pela República do Irã.
Ao se julgar à altura de integrar o Conselho Permanente da Organização das Nações Unidas, o Brasil precisa entender que uma vez adquirida tal cadeira deixará o tráfego miúdo das “veias abertas da América Latina” para se envolver em problemas globais grandes, como o conflito do Oriente Médio.
A recepção que o Itamaraty fará no final do mês ao presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, por exemplo, cria um sentimento de desconfiança enorme em relação às nossas aspirações de projeção política.
O mesmo vale para o assentimento às patuscadas de Chávez e, em conseqüência, ao desencadeamento de conspirações antidemocráticas em vários países do subcontinente sul-americano.
Chávez seria um razoável animador de auditório se estivesse a se candidatar a substituto do Chacrinha, no entanto seu modelo de ditadura esquerdista passa a incomodar quando, ainda que em forma de bravata, ameaça instaurar conflito militar na região.
Muita gente vai dizer que o País, apesar de ser um dos maiores exportadores de petróleo do mundo, possui um déficit energético que compromete o venezuelano de tomar um banho decente por dia, não estaria em condição de se aventurar em um empreendimento militar.
É aí que mora o perigo. O celerado coronel tem sim poder militar para iniciar um conflito com a Colômbia. Se o fizer estará a provocar um nacionalismo brancaleone, coisa que nunca foi boa providência na América Latina.
O presidente Lula em vez de conter o coronel lhe oferece palanque privilegiado no Mercosul. O Congresso Nacional tem a tradição de não tomar decisões de afogadilho e promover longa maturação de assuntos relevantes.
É o caso de o Senado aguardar os acontecimentos antes de promover uma medida precipitada e altamente desastrosa ao interesse nacional.
Em última análise, não acredito que Hugo Chávez vá à guerra, agora não subestimo a sua vocação de incendiário.
Está na hora de o Brasil por em evidência a sua liderança regional, provar que é um ator global confiável sob o ponto de vista de defesa da democracia e dizer não ao ditador.