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Entre o céu e a terra

Por Gérard Gérard e Margi Moss - Expedição Rios Voadores

Expedição mostra como correntes de ar carregadas de umidade que saem da região amazônica podem influenciar as chuvas das regiões Sul e Sudeste do Brasil

Para quem ouvir a expressão “rios voadores” pela primeira vez, de imediato pode ser levado a pensar que se trata do nome de uma rica sinfonia ou poesia surrealista. Entretanto, a magia e a força da arte que coexistem no termo foram criadas pela natureza e não pelo homem. O conceito científico basicamente pode ser exemplificado através da Amazônia, a maior floresta tropical úmida do mundo com uma área total de aproximadamente 7 milhões de km², o que representa cerca de 56% das florestas tropicais da Terra. Os ventos prevalecentes na Amazônia sopram de leste a oeste, o que traz para a região cerca de 10 trilhões de m ³ por ano de água na forma de vapor de água originada da evaporação do Oceano Atlântico. Parte desta água é carregada pelos ventos para as regiões Sul e Sudeste do Brasil.

Um exemplo prático, para salientar a importância desse incrível fenômeno, é a quantidade de água consumida em São Paulo. Com uma população abastecida de quase 11 milhões de pessoas, a cidade consome cerca de 2,4 bilhões de litros de água por dia. Vale a pena tentar imaginar a importância do transporte de umidade de um rio voador que se desloca na direção de São Paulo, podendo ser parcialmente proveniente da Amazônia. Certo dia de fevereiro de 2008, por exemplo, foi estimado que o transporte de

água fosse equivalente a 3200 m³ de água por segundo. Em teoria, isso significa que, naquele dia, a vazão desse rio atmosférico representava o consumo da cidade para mais de 100 dias.

Em outros termos, esse volume representa 27 vezes a vazão de um dia do rio Tietê, que corre na direção oposta. O rio que corta a metrópole chega a 160 m³ por segundo na época das chuvas, mas no período de seca, de abril a setembro, cai para 70 m³ por segundo. Infelizmente, nosso descaso com água gera a marca de 35 m³ por segundo de esgotos lançados no rio na Grande São Paulo, conforme informações da Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental (Cetesb).

Surgem, então, duas perguntas: até que ponto o vapor de água proveniente dos oceanos é responsável pelo total das chuvas nas diversas regiões e qual seria a importância da água que é evaporada nas plantas e superfícies cobertas por água para formar as nuvens que provocam chuvas em outras regiões do País? Como é que o desmatamento na Amazônia e as mudanças climáticas globais podem alterar o equilíbrio atualmente existente?

Pesquisa nas nuvens

Para entender melhor o ciclo hidrológico no Brasil e os trajetos percorridos pelo imenso volume de água representado pela umidade atmosférica, Gérard Moss – explorador ambiental, engenheiro e piloto –, há mais de um ano sobrevoa o país dentro de um avião monomotor, passando por várias cidades de norte a sul – Belém, Santarém, Manaus, Alta Floresta, Porto Velho, Cuiabá, Uberlândia, Londrina, Ribeirão Preto, entre outras. Seu projeto ficou conhecido como Rios Voadores.

O nome da expedição que o ex-empresário do ramo do afretamento marítimo planejou há dois anos, com patrocínio de R$ 2,5 milhões da Petrobras e participação de uma dúzia de cientistas, é uma alusão ao grande volume de vapor de água transportado pelas massas de ar existentes de norte a sul do País. Este verdadeiro rio que viaja sobre nossas cabeças pode ser maior que a vazão de todos os rios do Centro-Oeste, Sudeste e Sul e da mesma proporção que a do Rio Amazonas, o maior do mundo, com 200.000 m³ d'água por segundo. O Rios Voadores é uma nova fase do projeto Brasil das Águas, que faz parte do Programa Petrobras Ambiental, patrocinado pela companhia desde 2003. A ação também conta com a parceria da Agência Nacional das Águas (ANA).

Aliás, o maior objetivo do trabalho é exatamente aprofundar os estudos sobre tais correntes de ar que carregam umidade da Amazônia. Ao voar junto às nuvens, Gérard colhe amostras do vapor de água que são analisadas no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA), em Piracicaba. Isso acontece porque o avião dispõe de um pequeno coletor externo que capta o ar ambiente. Na mesma hora em que é coletado, o ar é direcionado a um tubo de vidro que é resfriado com gelo seco (-80°C) para condensar a umidade em uma gotinha de água no tubo. Sua análise procura propriedades dessa gota que possam definir da onde veio a água carregada por aquela massa de ar.

Para conseguir diferenciar a composição do ar em diferentes camadas atmosféricas, a coleta geralmente ocorre entre 500 e dois mil metros acima do nível do mar, em tubos de 40 centímetros, contendo uma pequenina gota de água. Para os especialistas, trata-se de um experimento pioneiro capaz de desvendar os mistérios acerca do assunto.

Gérard já fez um total de 12 viagens e estima ter recolhido cerca de 500 amostras. Outras 500 amostras de água de chuva e de rios foram coletadas. Os resultados encontrados pelos cientistas que trabalham na análise desses dados indicam que a expedição está no caminho certo.

O perigo mora ao lado

O engenheiro prevê que as informações sirvam para mostrar até que ponto o desmatamento da região amazônica poderá afetar o clima no restante do Brasil e de que forma tal degradação alterará o ciclo hidrológico, principalmente nas regiões Sul e Sudeste. As informações coletadas devem servir para que os modelos usados pelos estudiosos das mudanças climáticas possam validar seus resultados.

Existe uma forte recirculação de água entre a superfície e a atmosfera que é causada pela transpiração das plantas que compõem a floresta, fato que contribui para os altos níveis de precipitação que chegam a cerca de 2.400 mm/ano ou mais na floresta amazônica. Portanto, é certo que a destruição da mata provoca alterações ainda difíceis de quantificar. “Uma árvore de grande porte coloca cerca de 300 litros de água por dia na atmosfera. Sua retirada não atinge somente a Amazônia, mas todas as outras regiões para onde a água é transportada pelos ventos. Temos no Brasil cerca de 600 mil quilômetros de terras desmatados nos últimos 30 anos. Ainda não sabemos mensurar com precisão o tamanho deste impacto sobre o clima”, observa.

Gérard comenta que, apesar da Amazônia Legal representar, em média, 10% da população e do PIB do País, pouco é investido em tecnologia. “É justamente lá que deveria haver muito mais investimento. O clima de São Paulo nunca vai ter impacto na Amazônia, mas toda a região amazônica faz a diferença, não só para as demais cidades brasileiras como para outros países”, avalia. E ele tem razão: já se nota que os efeitos extremos das mudanças climáticas podem variar de alagamentos até o início de um

processo de desertificação de vários municípios. “Mas, está na hora de olhar para a floresta como parte da solução e dar mais valor a ela”, destaca o explorador.

Com tudo isso, Gérard também espera aproximar a população dos grandes centros urbanos das questões relacionadas ao meio ambiente que as afeta diretamente, além de alertá-la sobre a importância da conscientização do uso racional da água. “Ninguém nunca havia acompanhado os rios voadores de avião para tentar entender como o processo funcionava. É importante que a população entenda um pouco mais. E o papel da mídia é fundamental para isso”, comenta.

 O começo de tudo

É importante ressaltar que todo o projeto tem a coordenação científica de Enéas Salati, agrônomo e ex-professor do CENA/Esalq do campus de Piracicaba da Universidade de São Paulo, considerado um papa no assunto. Além dele, há a participação de vários cientistas ligados ao tema. Segundo Gérard Moss, um dos mais importantes pontos do projeto é unir a técnica isotópica à meteorologista e vice-versa.

Na verdade, há 30 anos Salati fez um estudo, por meio de técnicas isotópicas, que revelou que 44% do fluxo de vapor de água que penetra na região amazônica vindo do Oceano Atlântico, trazido pelos ventos alísios, que sopram de leste para oeste, saem da bacia amazônica, condicionam o clima da América do Sul e atingem as regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste do Brasil.

A pesquisa é, até hoje, utilizada como base para o conhecimento hidrológico da região e foi fundamental para a elaboração do projeto Rios Voadores. Segundo o prof.

Salati, “o projeto só foi possível de ser executado por causa do espírito aventureiro e da coragem de Gérard Moss. Ele enfrentou os perigos das viagens, acompanhando o deslocamento das massas de ar e coletando as amostras de vapor de água de Belém até o interior do Amazonas – e depois rumo às zonas centrais do Brasil – em uma pequena aeronave”.

Rios Voadores

São cada vez mais frequentes e pesadas as tempestades que caem no Sul e Sudeste do País, fato que causa consequências desastrosas para boa parte da população. Por outro lado, os períodos de seca são cada vez mais extensos, o que leva ao racionamento de água e complexos problemas econômicos e sociais. A gravidade dos efeitos extremos realça a importância da adoção de critérios de desenvolvimento sustentável que não agravam ainda mais as repercussões do aquecimento global

A expedição – Gérard Moss, idealizador e realizador do projeto, percorreu várias regiões brasileiras em um avião monomotor para identificar os cursos dos rios voadores, que transportam vapor de água de norte a sul do País.

Objetivos – Aprofundar os estudos sobre o transporte do vapor de água da bacia Amazônica para outras regiões. Buscar avaliar os mecanismos desse transporte da umidade e entender de que forma o desmatamento e as mudanças climáticas globais influenciam o nível das chuvas em outras regiões.

Metodologia – Amostras de vapor de água coletadas em pequenos tubos durante o voo são analisadas, por meio de técnicas isotópicas, ajudando a identificar a origem, a dinâmica e o deslocamento das massas de ar e de vapor de água.

 

 

Gérard Gérard e Margi Moss - Exploradores Ambientais. Expedição Rios Voadores. Seus pontos de vista são não necessariamente aqueles de Petroleumworld.

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Petroleumworld Brasil 06/06/09

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