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Presidente do PSDB-MG: Aécio Neves não é pneu estepe

Terra Magazine

Aécio Neves e José Serra

Por Bob Fernandes, direto de Belo Horizonte (MG), na Terra Magazine

Para os mineiros, tão ciosos de sua peculiar maneira de ser e fazer política, esta quinta-feira, 4 de Março, é um dia carregado de significados. Uns explícitos, outros implícitos, estes embutidos em símbolos e gestos.

Como o jantar entre Aécio Neves e José Serra que deveria ter acontecido no Palácio das Mangabeiras, Belo Horizonte, ontem, quarta 3, mas que não aconteceu. Simbólico não-jantar do qual trataremos linhas mais abaixo.

Tancredo Neves é um símbolo; da busca hábil e paciente da transição da ditadura para a democracia.

Tancredo Neves é o avô do hoje governador de Minas, Aécio Neves, que aos vinte e um anos serviu como secretário particular ao avô, que foi governador de Minas eleito em 1982 e depois candidato a presidente da República, eleito por um Colégio Eleitoral do Congresso em 1985.

Tancredo que buscou o poder maior por meio século e que, quando conseguiu o que tanto almejava, subiu a rampa do Palácio do Planalto num caixão. Donde o neto Aécio viver a repetir, quase como mantra:

- A presidência da República não é vontade, é destino…

Na manhã desta quinta-feira, no meio do caminho entre Belo Horizonte e o aeroporto de Confins, o governador Aécio vale-se de um símbolo ao inaugurar uma obra de dimensões monumentais: a Cidade Administrativa Tancredo Neves. Se vivo o ex-governador faria 100 anos nesta quinta. Aécio, fará 50 anos no próximo dia 10.

O conjunto de prédios que abrigará 16 mil funcionários das administrações direta e indireta (veja aqui os detalhes) foi projetado por outro símbolo, Oscar Niemeyer, que tem espalhados por Belo Horizonte os primeiros traços da sua longeva e impressionante caminhada.

Os símbolos não são apenas estes.

Para as festividades de hoje o tucano Aécio, que em 2008 elegeu Marcio Lacerda prefeito de Belo Horizonte numa dobradinha com o PT de Fernando Pimentel, convidou amplo leque de políticos e partidos: Lula, o presidente da República, o vice José Alencar, Ciro Gomes, do PSB, pré-candidato a presidente ou governador de São Paulo ou…, ministros ligados a Minas, então, certamente, Hélio Costa, do PMDB, e mais os grão-tucanos Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin, Sérgio Guerra, Tasso Jereissati, o peemedebista governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral…

E, claro, Aécio convidou José Serra, governador de São Paulo e, ao que se sabe, pré-candidato a presidente da República pelo PSDB.

Ontem, quarta, Aécio e Serra jantariam no Palácio das Mangabeiras, mas…o jantar gorou, ou se deu sem a presença dos dois apesar de alardeado semana afora nas mídias pequenas e grandes sem que ninguém tivesse desmentido.

Delicioso. Não o jantar, de cardápio desconhecido até o fechamento desta edição, mas os gestos e palavreado em torno da maionese desandada, de toda esta simbologia.

Sobre o regabofe a dois que não mais haveria, Serra falou em Sapopemba, localidade da zona sudeste de São Paulo elevada à condição de armadilha para néscios por Jânio Quadros, em 1985, quando este encaçapou a prefeitura de São Paulo e Fernando Henrique Cardoso.

Serra, lá em Sapopemba, garantiu “nunca” ter marcado jantar com Aécio. E emendou significativa frase, destas que pode ser lida de várias formas. Frase à mineira, para ser exato:

- Eu nunca afastei a possibilidade de vir a ser candidato, ela existe, sim…

O governador Aécio, por seu lado, juntou palavras que qualquer mineiro entenderá. Ele, que pela manhã citara Tancredo em Brasília – “não empurra, se empurrar eu não vou” – a respeito do célebre jantar que foi sem nunca ter sido, diria mais tarde:

- Vou jantar hoje com minha filha (Gabriela), mas se o Serra quiser aparecer, será bem vindo…

Como não houve o jantar tucano, a culpa, certamente, deve ser do mordomo.

Terra Magazine, ciosa de seu dever, buscou ouvir vários com os quais conversara ao longo do dia, inclusive e em especial sobre o jantar, este que não foi tendo sido tão anunciado.

Delicioso. Dos poucos telefones que não sofreram súbita e repentina pane noturna brotaram manifestações de perplexidade; e pouca coisa pode ser mais mineira que essa perplexidade de ocasião:

- Jantar? Uai, sô, e tinha jantar?

- Jantar? Que jantar?

- Jantar? Moço, num ouvi dizer nada não…

Como se sabe, Aécio queria, quis ser candidato a presidente da República pelo PSDB, mas Serra, que quer ser, não quis que fosse Aécio o candidato. Agora Serra quer, ou queria até ontem à noite, que Aécio seja seu candidato a vice. Aécio não quer. E não será, a se crer no que disse, gravado em áudio e vídeo, a Terra Magazine no dia 17 de janeiro.

Os mineiros, ainda mais na política, falam por símbolos, metáforas, parábolas, de maneira direta como o governador Aécio já falou, ou de maneira indireta, através de seus líderes mais próximos.

No dia D da largada da sucessão presidencial para os tucanos, Terra Magazine, que já ouviu de Aécio um “chance zero” acerca da hipótese da candidatura a vice, conversou com o deputado federal Narcio Rodrigues, presidente do PSDB de Minas e um dos mais próximos interlocutores do governador. Para ouvir do deputado:

- Isso (candidatura a vice) chega às raias da deselegância, do desrespeito. Nós respeitamos o prazo do Serra (…) da mesma forma o Aécio precisa ser respeitado. (…) Aécio Neves é um líder, não será pneu estepe, reserva (…) Ele não será, de forma alguma, candidato a vice…

A propósito de Narcio Rodrigues, interlocutor na conversa exposta linhas abaixo, o autor com ele deparou-se por acaso aos 15 minutos desta quinta em Belo Horizonte.

O deputado Narcio terminava o jantar com amigos, outro jantar, não aquele. No restaurante “A Favorita”, rua Santa Catarina, 1235, Bairro Lourdes. Abordado pelo repórter o presidente do PSDB de Minas demonstrou todo seu espanto. Por uma fração de segundo, ao menos isso, foi possível crer quando o interlocutor do governador Aécio Neves exclamou:

-Uai, sô! E não teve o jantar, não? Não sabia disso não, tô aqui jantando…

Terra Magazine – Os governadores Aécio Neves e José Serra, de Minas e São Paulo, jantariam ontem à noite no Palácio das Mangabeiras, em Belo Horizonte, para tratar de sucessão presidencial. (NR: Não houve o encontro). Na mídia e nos chamados “meios políticos” segue a pressão para que Aécio aceite ser candidato a vice-presidente mesmo ele já tendo dito, como disse a Terra Magazine há mais de um mês, que a chance disso acontecer é “zero”…
Narcio Rodrigues -
Isso chega às raias da deselegância, do desrespeito. Nós respeitamos o prazo do Serra, que pediu até o final de março, início de abril, e da mesma forma o Aécio precisa ser respeitado na sua decisão. Ele disse que se voltaria para Minas, disse que não seria candidato a vice, e não será.

Tá resolvido?
Esse é um assunto que já está resolvido. Não será de forma alguma, não há nenhuma chance dele ser vice. Se ele hipoteticamente, repito, hipoteticamente, fosse vice, pela tradição teria que ter uma atuação extremamente hierárquica e respeitadora do projeto do presidente e isso o obrigaria a abandonar o projeto dos que pensam como ele, o seguem e o apoiam, ele teria que encolher, deixar de ter a dimensão que tem…

Nos dê um exemplo…
Imagine ele, vice do Serra tendo um encontro reservado com Lula, para conversas que um líder deve ter? No dia seguinte, diriam que o vice está conspirando…

Nesta quarta, ontem, o jornal Estado de Minas publicou um editorial intitulado “Minas a reboque, não!” onde fala em “indignação” e repele “a arrogância de lideranças políticas temerosas do fracasso”. O que, nesse processo, incomoda os mineiros, o que incomoda a você, presidente do PSDB em Minas e um dos mais próximos interlocutores do governador?
O governador Aécio Neves é um líder, ele tem um projeto, tem ideias, quis discuti-las com o País e fez essa proposta ao partido, não foi possível, e ele anunciou que voltava sua atenção para o processo eleitoral de Minas. Ele, portanto, não será um pneu estepe.

Um regra três, um reserva?
Isso, ele é um líder, com um governo de grande avaliação positiva no Estado que governa há 8 anos, então ele não é e não pode ser visto como um pneu estepe. Ele pode, se elegendo senador, ser presidente do congresso, do PSDB, qualquer coisa. Por que razão ele ficaria a reboque desse processo, qual é a lógica disso?

A que lógica você se refere?
Digamos que teoricamente, apenas teoricamente, o Aécio aceite ser vice e o Serra resolva não ser candidato! Vamos chamar o vice para ser candidato a presidente? Isso tem lógica? Vamos botar as coisas em ordem. Muitas vezes isso é falta de notícia e aí ficam alimentando estas teorias.

Tá certo que colunistas e mídia em geral têm insistido no assunto apesar das declarações e desmentidos do governador Aécio, mas não vamos dizer que é “culpa da imprensa”, né? Se há quem publique é porque há quem alimente as especulações…
Claro, não estou dizendo que é culpa da imprensa e certamente há quem alimente isso, mas isso é falta de notícia.

Em entrevista publicada no dia 17 de janeiro, gravada em áudio e vídeo e aqui disponível, o governador Aécio disse que a chance dele ser vice era zero. É isso mesmo?
É isso, chance zero, os dois vão marchar juntos, os vínculos serão fortalecidos, mas a chance de o governador Aécio ser vice é zero.

E digamos que o governador Serra decida-se por não ser candidato…
O governador Serra pediu o prazo, ele está governando, é bem avaliado, não adianta as pessoas torcerem contra. Ele está dentro do prazo que pediu, vamos respeitá-lo…

 

 

Bob Fernandes, journalista , editor de Terra Magazine, Revista digital com política, economia, esportes, mundo, cultura, mídia, tecnologia, meio ambiente, prazer, saúde e ciência. Fernandez, passou pela Rádio Jornal do Brasil, Veja, IstoÉ e Folha de S. Paulo. Seus pontos de vista são não necessariamente aqueles de Petroleumworld.

Do editor: Este comentário foi publicado original por Terra Magazine - 4/03/2010. Nós reproduzimos o mesmos ao benefício dos leitores.

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Petroleumworld Brasil 6/03/2010

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